DIÃLOGOS COM O PAPEL


DIÁLOGOS COM O PAPEL
(Notas ligeiras sobre MEMORIAL DE AIRES)
Minha aposentadoria não é tão tranquila como a do ex-diplomata conhecido como Conselheiro Aires que declara pacatamente que vai ficar quatro ou cinco dias em casa, não para descansar, porque não faz nada, mas só para não ver nem ouvir ninguém (17/05). Minha aposentadoria tem mais atividades: ir ao mercado, cuidar de jardim, cuidar de gato, levar mulher ao médico, ir ao médico, fazer hidroginástica, algumas reuniões na igreja e, brincar com os netos, que é uma versão da felicidade. Apesar disso tenho aproveitado a aposentadoria para reler ou ler alguns velhos escritos de Machado de Assis. Foi assim que nesses dias retomei o MEMORIAL DE AIRES. Começara a leitura dessa obra há muitos anos, porém interrompi por alguma razão que não me ocorre agora, mas que devia ser algo importante.
O Conselheiro, talvez na falta de algo melhor pra fazer, resolveu registrar alguns acontecimentos da vida alheia, quer dizer, dos amigos com quem conviveu nos anos 1888, ano da chamada Lei Áurea, e 1889, ano da Proclamação da República, cujos rumores de estar prestes a acontecer ele registra, mas seu Memorial não chega até 15 de novembro.
Se alguém tiver a curiosidade de conhecer as fofocas do Memorial, saiba desde o início que não se trata de um romance com trama envolvente. Seu enredo gira basicamente em torno de Fidélia (o nome já diz tudo), uma viúva que não quer se casar de novo, em sinal de sua fidelidade ao marido falecido. Na verdade, os protagonistas mesmo (se podemos chamar assim) são o casal de idosos, Aguiar e D. Carmo, que veem em Fidélia uma espécie de filha adotiva. Mas não vou dar mais spoilers.
Um homem que conversa com papéis. Isso é o que o Conselheiro diz em diversos momentos. O papel é seu confidente, já que ele não consegue dizer o que pensa a ninguém (08/03). “Fique isto confiado a ti somente, papel amigo, a quem digo tudo o que penso e tudo o que não penso.” (16/06). É nele que ousa destilar um pouco de seus pequenos venenos e ironias sobre a vida, as emoções, os sentimentos: “Não há nada mais tenaz que um bom ódio” (27/03).
O Conselheiro, talvez pelo vício da diplomacia, embora ele mesmo reconheça que isso é uma característica de sua personalidade desde a infância, nunca ou quase nunca diz o que está realmente pensando ou o que acha de determinado assunto ou situação. Tem até prazer quando diz algo que, no fim, agrada aos dois lados da disputa, comportando-se de forma a agradar a todos. Assim ele pode dizer com certa ironia orgulhosa: “... sorrindo quando era preciso ou consternado nas ocasiões pertinentes”. (02/03)
Essa postura que chamamos hoje de “em cima do muro” é a marca registrada de alguém que é um observador da sociedade, sendo parte dela, porém sem assumir nenhuma posição clara sobre as questões em debate.
Um exemplo. Quanto à abolição ele declara que ficou alegre com o fato, embora não fosse “propagandista” da abolição. Recorda que, quando Lincoln proclamou o fim da escravidão nos Estados Unidos, muitos jornais europeus falaram que só faltava o Brasil, “um povo cristão e último” a encerrar a escravidão. Não deixa de lembrar também o dito
da inconfidência mineira: “ainda que tardiamente...”. (19/04). Aliás, uma reflexão que ele faz em 13 de maio, dia da promulgação da lei, indica a consciência do relativismo das leis e o problema dos atos particulares, insinuando – penso eu – que lei não bastaria para resolver o problema, além de que não seria possível apagar esse passado escravocrata.
Ainda bem que acabamos com isto. Era tempo. Embora queimemos todas as leis, decretos e avisos, não poderemos apagar com os atos particulares, escrituras e inventários, nem apagar a instituição da história, ou até da poesia. A poesia falará dela, particularmente naqueles versos de Heine em que o nosso nome está perpétuo. (“o nosso nome” é o nome do Brasil).
Conclui destacando a importância da poesia, referindo Heine, o poeta alemão que Niestzsche achava que seria considerado um dos maiores junto com ele. Parece que foi neste poema de Heine, Das Sklavenschiff (O Navio dos Escravos, literalmente), que Castro Alves teria se inspirado para escrever o Navio Negreiro.
A propósito, o Memorial é cheio de referências literárias: Shakespeare, Dante, Shelley, Eclesiastes... (como é comum em Machado de Assis).
Como essas notas ligeiras estão saindo mais compridas que o previsto, vou encurtá-las para não precisar mudar o subtítulo.
Só registro secamente que também nas questões políticas ou religiosas, o Conselheiro também tem essa atitude relativizante e ambígua em que não dá pra saber exatamente o que ele pensa. Assim se alguém diz que algo é do destino, ele observará que outro pode achar que seja apenas acaso. E assim por diante.
Mas há uma cena que não consigo deixar de registrar.
Depois que o pai de Fidélia faleceu, ela teve um sonho em que via o pai e o sogro, que eram inimigos políticos figadais, juntos sobre a enseada e conclui que se tornaram amigos na outra vida. O Conselheiro ouviu esse relato do desembargador Aguiar que era tio e uma espécie de pai adotivo de Fidélia. O Conselheiro registra em seu Memorial:
“Quis replicar ao desembargador que talvez a sobrinha tivesse ouvido mal. A reconciliação eterna, entre dois adversários eleitorais devia ser exatamente um castigo infinito. Não conheço igual na Divina Comédia. Deus quando quer ser Dante, é maior que Dante. Recuei a tempo da facécia; era rir da tristeza da tristeza da moça.” (01/08, p. 57).
Enfim, o Conselheiro, um observador perspicaz das sutilezas do relacionamento humano não é de fato um conselheiro, apesar de sua experiência e habilidade, mas é um bom ouvinte, o que, talvez, seja a melhor forma de ajudar as pessoas. (Para evitar confusão, lembro que o título de “Conselheiro” referia-se ao cargo que ele desempenhou no Império).
O Memorial parece sugerir um certo cinismo em relação à vida e a seus dramas privados ou públicos. Entretanto, não deixa de conter uma triste ternura pela condição humana. Especialmente naqueles em que parece que a vida parece ter se esvaziado. A cena final em que o Conselheiro vê Aguiar e D. Carmo sentados na varanda é suavemente triste:
“Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos.”
Fico por aqui.