1 OS NEO-PATRIOTAS
A partir de um determinado momento, nosso país ficou infestado de pessoas vestindo camisetas da seleção brasileira, levando bandeirinhas com cópia do pavilhão nacional, batendo no peito estufado e proclamando de boca cheia: sou patriota!
Esse orgulho patriótico de alguns significa, em primeiro lugar, que eles acham que outros não são patrióticos, porque não se enquadram nos seus conceitos e padrões de patriotismo. No caso brasileiro, a ideia desses neo-patriotas[1] é que os que são de esquerda (socialistas? comunistas? petistas?) são anti-patriotas. Os neo-patriotas apenas repetem o mesmo discurso que a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945) e a ditadura dos generais[UdW1] [2] (1964-1985) usavam. Evidentemente em países socialistas, os anti-patriotas seriam os que aqui se acham patriotas. Em ambos os casos, são considerados anti-patriotas aqueles que discordam do autoritarismo do regime ou dos sistemas econômicos vigentes em seu país.
Na verdade, esse discurso patriótico exerce uma função bem clara: justificar as atitudes arbitrárias dos tiranos de todos os tempos, desde a Roma antiga (ou se quiserem ir mais longe: desde o tempo dos grandes impérios orientais) até nossos dias. Por isso o discurso patriótico é essencial na ideologia dos ditadores (ou candidatos a ditador) e de seus súditos.
2 PREPARANDO A TIRANIA
A preparação do terreno para a implantação de uma ditadura supõe criar um clima de empolgação patriótica. Isso não é tão difícil. Sempre há pessoas insatisfeitas, que se sentem inferiorizadas ou marginalizadas ou incompreendidas e que acham que mereceriam muito mais do que têm. Se esse sentimento se combina com momentos de crise econômica ou política, as condições básicas estão dadas.
Entretanto, para tornar isso possível, é essencial haver alguém que catalise essas frustrações e insatisfações. Um homem que pareça representar os anseios dessas pessoas. Esse homem, contudo, deve ser apresentado como alguém extraordinário, um ser superior, um ser que vai salvar o país daquela situação que os súditos consideram inferior à grandeza do país e ao seu valor pessoal. Ou seja, precisa-se um mito.
Um aspecto que não pode ser esquecido é que, como em muitas espécies animais, a espécie humana precisa de um macho alfa. O processo civilizatório fez com que a humanidade superasse esse tipo de tendência criando uma forma de relacionamento menos determinado pelos instintos. Contudo, não podemos negar que há muita gente que precisa de um macho alfa. Não apenas mulheres, mas também homens precisam de alguém em quem se espelhem, em quem vejam um modelo que podem seguir ou que os faz sentir-se seguros. Por isso, esses líderes, ditadores ou candidatos a ditadores, constroem uma imagem que os projeta como um poderoso macho alfa, aquele que tem a força e a capacidade de controlar tudo. Evidentemente, o nível de construção dessa imagem depende do estágio cultural e intelectual da sociedade em que ele se encontra e do próprio nível intelectual do pretenso líder. Assim, essa superioridade pode ir do “ser um gênio” a “ser imbrochável”. E sempre será um tipo “valentão”: o homem que vai acabar com todos os inimigos da nação.
Outro aspecto é a necessidade que todos temos de nos sentir parte de alguma coisa importante, de pertencer a um grupo que nos aceite e que nos conduza. Muitas pessoas se incorporam aos grupos “patrióticos” por essa razão. Essas pessoas são capazes de tudo pelo grupo e pelo líder. Obedecerão a qualquer ordem ou comando, mesmo que se trate de coisas que não fariam normalmente ou até coisas que considerariam erradas. Seu espírito de “lealdade” lhes dá uma sensação de conexão e proteção que os faz sentir-se bem.
Assim, esse “patriotismo” justifica tudo: torturas, sequestro de pessoas, assassinatos. Como disse um dia desses um general ou coronel: “vocês não imaginam o que eu sou capaz de fazer pela pátria”. O que ele quis dizer foi: “vocês não imaginam as barbaridades que eu sou capaz de cometer em nome da pátria”.
Implantada a ditadura, necessariamente os direitos fundamentais serão abolidos. A começar pela liberdade de expressão. O Estado tentará controlar todos os cidadãos para garantir que não haverá oposição e usará de todo poder militar e policial que possui para calar ou eliminar qualquer oposição.
Entretanto, antes de assumir o poder, os candidatos a ditador e seus súditos sempre reclamam que não existe liberdade de expressão, que não podem dizer o que pensam etc. Reclamam que não têm liberdade para apresentar a sua proposta de ditadura, o que quer dizer: exigem liberdade de expressão para defender o fim da liberdade de expressão ou fazem manifestações para pedir o fim do direito de manifestações.
3 UM EXEMPLO HISTÓRICO
Tudo que eu disse até aqui tem sido demonstrado historicamente. Vou lembrar resumidamente um caso típico que é bastante conhecido.
A Alemanha no fim do século XIX era uma nação de grande cultura e bem estruturada. Porém havia uma certa insatisfação por parte de alguns grupos que se achavam pouco valorizados. Havia também um sensação difusa entre os alemães de que a Alemanha era subestimada pelo restante da Europa. Esse sentimento era estimulado pelo governo autoritário do Imperador Guilherme II.
Foi se alastrando no meio do povo um clima de patriotismo exagerado em que vários setores e grupos começaram a acusar os que não concordavam com as políticas do Imperador de anti-patriotas. Simultaneamente, era alimentado o culto à personalidade ao Imperador. Desse modo, preparou-se um estado de guerra que desembocou na Primeira Grande Guerra. Após a derrota, a Alemanha entrou em grave crise econômica[3]. Nesse contexto caótico, grupos extremistas nacionalistas começaram a crescer até que encontraram um líder em Adolf Hitler com sua pregação “patriótica” e vingativa. Hitler chegou a ser preso por uma tentativa de golpe de Estado que fracassou, mas depois de solto fortaleceu sua liderança. Quando ainda não tinham alcançado o poder, os nazistas reclamavam da falta de liberdade de expressão que, depois, como se sabe, foi completamente abolida.
Esse é um exemplo da trajetória desse tipo de “patriotismo” que tem alimentado todas as ditaduras desde a Antiguidade.
4 PATRIOTAS OU TRAIDORES
De modo semelhante, os seguidores de Bolsonaro tentam defender os que fizeram manifestações a favor de um golpe militar para manter o ex-presidente no poder alegando o direito de livre manifestação. Usam o discurso de “liberdade de expressão” para justificar todas as suas falas antidemocráticas, para justificar as calúnias ou ofensas pessoais contra autoridades ou instituições. Enfim, usam isso para poderem continuar a tentar desmoralizar as instituições democráticas e pregar a implantação de um regime autoritário.
Não seria preciso dizer que a liberdade de expressão e de manifestação não pode incluir o direito de propor ditaduras. Isso é óbvio em si mesmo. A liberdade de expressão também não pode admitir o direito de ofender, caluniar ou difamar os outros. Isso também é óbvio. No entanto, os súditos e seus líderes não estão preocupados com lógica, nem com a verdade, nem com a liberdade. Seu projeto é apenas conquistar o poder.
O mais curioso é ver como esses “patriotas”, hoje, estão conspirando com um governo estrangeiro para pressionar as instituições brasileiras. Como todo patriota sabe, “conspirar com governos estrangeiros é crime contra a pátria”. E, em toda a história humana, traição à pátria costuma ser punida com a pena de morte. A Constituição brasileira, a mais democrática do mundo, proíbe a pena de morte, a não ser para crimes militares no caso de uma guerra declarada. Assim, esses anti-patriotas continuam agindo contra o Brasil sabendo que não correm risco maior. Por outro lado, se tomassem o poder, com certeza, não teriam escrúpulos em criar a pena de morte para os que discordassem deles.
O principal líder dessa conspiração contra o país está nos Estados Unidos articulando com o governo norte-americano formas de prejudicar o Brasil. Aqui no Brasil, os seguidores de Bolsonaro, esses neo-patriotas, apoiam as atividades conspiratórias do Eduardo Bolsonaro. Então, do mesmo modo como foram para frente dos quartéis para pedir uma intervenção militar, agora pedem que o governo norte-americano intervenha no Brasil para “salvar seus líderes”. Evidentemente, interessa aos norte-americanos ter no Brasil um governo que ele possa controlar, então o governo norte-americano não vê problemas em tentar interferir nas instituições brasileiras (de novo!).
5 DEUS SALVE O BRASIL
Em resumo, esses discursos patrióticos exacerbados supõem sempre uma atitude de guerra contra alguém: contra imaginados inimigos externos e contra imaginados inimigos internos, que devem ser todos eliminados. Esse patriotismo fanático é substancialmente rancoroso e violento. Esse tipo de patriotismo se sustenta ameaçando e agredindo outras pessoas que não se ajustam à sua ideologia autoritária e capitalista (no caso do Brasil).
Por isso, temos hoje, em nosso país, esse clima de permanente tensão e agressividade política. Os jornalistas políticos gostam de falar em “polarização” e costumam atribuir a responsabilidade aos dois lados da disputa política, mas isso não é verdade. Os responsáveis por essa “polarização” são os neo-patriotas que iniciaram essa prática agressiva e rancorosa liderados por aquele que eles chamam de mito.
Deus salve nossa pátria desse tipo de patriotas!
[1]Embora a gramática atual determine não usar hífen nestas situações, manterei o hífen para melhor visualização do sentido.
[2] Costuma-se usar o termo “ditadura militar” para se referir a este período. Prefiro falar em “ditadura dos generais”, porque, afinal de contas, toda ditadura é militar, pois depende da sustentação das forças armadas e policiais. Isso desde sempre. Como não houve apenas um ditador, como no tempo de Getúlio Vargas ou mesmo como Pinochet (no Chile), mas foi presidida por generais que se sucediam, falo em “ditadura dos generais”.
[3] Até por causa da insensibilidade dos europeus. E aqui podemos dizer que os americanos tiveram um comportamento mais decente não apoiando as condições absurdas de rendição que os europeus impunham à Alemanha.